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Leandro Vieira
Gestão de Projetos

Liderança de projetos na era da IA: coisas que a tecnologia ainda não faz por nós

Como a liderança de projetos continua essencial mesmo com equipes usando IA no dia a dia, o que a tecnologia ainda não resolve nos relacionamentos.

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Sua equipe já usa IA em quase tudo o que entrega no projeto. Mas será que ela está ajudando as pessoas a se entenderem de verdade, ou só deixando os e-mails mais longos?

Estou conduzindo um projeto de adequação de processos e sistemas a uma nova exigência legal. É um projeto que envolve um time multidisciplinar, com analistas de sistemas, operações, jurídico, fiscal, comercial e representantes de praticamente todas as diretorias da empresa. E é nesse ambiente, com tanta gente com diferentes funções trabalhando junto, que tenho observado de perto um movimento que vale a pena compartilhar.

A IA entrou de vez na rotina do projeto

A IA passou a fazer parte do dia a dia de cada pessoa do time. Ela entende rápido o que a legislação exige. Cria apresentações e materiais de apoio para explicar pontos complexos. Varre a base de dados da empresa em busca de padrões e inconsistências nos cadastros e ajuda a corrigir essa mesma base. No papel de PMO tenho utilizado para montar status reports, resumir atas e organizar informação que antes levava horas para ser consolidada.

Cada uma dessas frentes de trabalho ganhou velocidade. Entendimentos que levavam dias agora acontecem em poucas horas. Discussões técnicas avançam mais rápido porque todo mundo chega com um nível parecido de informação. Até aqui, a IA está cumprindo exatamente o papel que se espera dela como ferramenta: acelerar o trabalho técnico.

O ponto que mais me chama atenção

Tem uma frente, porém, onde esse ganho de velocidade não aparece: o relacionamento entre as pessoas do time.

Reparo isso principalmente nos e-mails trocados entre os membros de cada área que participam do projeto. Tem um padrão fácil de reconhecer, textos longos, cheios de detalhes, explicações e justificativas, com aquela estrutura característica de quem usou IA para escrever. O resultado é que, do outro lado, a gente também usa IA, só que para resumir o textão em duas frases.

E o ciclo se repete. Uma pessoa escreve com IA, explicando e justificando, a outra lê com IA, resumindo e simplificando. A troca acontece, mas o entendimento real entre as duas pessoas geralmente não acompanha.

O sintoma aparece pouco depois. As mesmas pessoas que trocaram e-mails bem escritos e bem estruturados continuam procurando o gerente de projetos para conversar sobre o que não ficou resolvido. Para entender como a pessoa A pensa, o que a pessoa B realmente quis dizer, por que aquele retorno não veio como esperavam.

Noto que tem faltado aquela conversa direta: levantar da cadeira e ir até a mesa que fica a três metros, fazer uma ligação, chamar no chat para alinhar, marcar uma videochamada para conversarem (quando a distância é um limitador). Esse é um movimento que a IA ainda não faz pelo projeto.

Por que a liderança de projetos continua sendo insubstituível na era da IA

Esse comportamento não é exclusivo do projeto que estou conduzindo agora. Ele tende a aparecer em qualquer time multidisciplinar que passou a usar IA com intensidade na comunicação escrita, especialmente quando o projeto envolve áreas com interesses, prazos e vocabulários diferentes, como costuma acontecer em iniciativas multidisciplinares.

É justamente aí que a liderança do gerente de projetos ganha uma camada a mais de importância. Não porque a IA atrapalha, mas porque ela muda a forma como as pessoas se posicionam por escrito e isso exige de quem lidera um olhar mais atento para o que está por trás de cada resposta.

Três coisas continuam sendo, na minha percepção, responsabilidade de quem lidera o projeto, e nenhuma IA faz por nós:

  • Ter o feeling das relações: perceber quando um e-mail bem escrito esconde uma divergência real entre pessoas das áreas, mesmo que o tom pareça cordial.
  • Entender o que está por trás da mensagem: separar o que a IA ajudou a formular do que a pessoa realmente pensa e precisa, e usar isso para agir antes que o atrito cresça.
  • Integrar o time rumo a um objetivo comum: perceber dependências entre as áreas, facilitar o encontro que destrava a conversa e manter todo mundo olhando para o mesmo objetivo almejado.

O que fica dessa reflexão

Liderança de projetos na era da IA envolve a capacidade de usar a tecnologia para acelerar o trabalho técnico sem abrir mão de facilitar relacionamentos, entender conflitos e manter o time integrado em torno de um mesmo objetivo.

A IA acelera o trabalho técnico do projeto de um jeito que seria difícil imaginar há poucos anos. Isso é bom e deve continuar sendo explorado por quem gerencia projetos. Mas ela não substitui o papel de quem facilita relacionamentos, reconhece contribuições, alinha visão de futuro, provoca como as coisas são feitas e celebra conquistas junto com o time.

Essas continuam sendo responsabilidades que a ferramenta não assume por nós. É justamente por isso que a liderança do gerente de projetos segue sendo, talvez agora mais do que antes, uma das habilidades mais importantes de quem conduz um projeto.

As observações deste artigo refletem percepções pessoais da minha atuação como gerente de projetos, não de uma empresa específica.

Se esse tema faz sentido para você, vale complementar com dois artigos que conversam diretamente com ele: sobre como a liderança se constrói pelo exemplo e pelos valores em liderar pelo exemplo e pelos valores, e sobre como a confiança sustenta o relacionamento dentro de um time de projeto em confiança e relacionamento em projetos.

Um abraço! Leandro | PMP | Gestor de PMO e Projetos

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