Época de orçamento, cuidado com a promessa de "fazer com IA"
Trocar SaaS por sistema feito com IA em época de orçamento? Veja por que o custo de manutenção pesa mais do que o de construir com Vibe Coding sem processo.
Estamos em período de orçamento em grande parte das empresas e você já deve ter ouvido essa frase em alguma reunião: "esse sistema a gente constrói internamente, com IA sai mais barato". A proposta parece óbvia. O problema é que nem sempre estão calculando o custo certo.
Com o avanço da IA, ficou comum usar Vibe Coding para construir sistemas rapidamente, sem passar por um processo formal de engenharia de software. E é exatamente aí que mora o risco que eu quero alertar nesse artigo.
O risco de trocar SaaS por software construído em Vibe Coding
Vibe Coding resolve um problema específico: velocidade. A IA constrói código rápido, mas código é apenas uma parte da construção de um software. O processo é quem organiza as coisas, define os requisitos, arquitetura, camadas de responsabilidade, testes automatizados, versionamento e gestão de configuração.
Sem processo, você não tem um sistema. Tem um protótipo que funciona hoje e que dificilmente alguém consegue explicar amanhã.
O maior custo não é construir, é manter
Trabalho em projetos de construção e manutenção de sistemas há mais de 16 anos e posso afirmar: esse é o ponto que mais pesa na decisão e que menos aparece na conversa de orçamento. A maior parte do esforço e do dinheiro de um software não está na construção, está na manutenção ao longo dos anos.
Quando a diretoria avalia trocar um SaaS por um sistema interno, normalmente compara o custo da assinatura atual com o custo de construir. Essa conta está incompleta. Falta perguntar: quanto custa manter esse novo software? Quem vai corrigir bugs, atualizar dependências, adaptar a sistemas que mudam, treinar quem chega depois? Como já falei sobre quem paga, quem compra e quem mantém um sistema, cada um desses públicos cobra uma conta diferente, e quem acaba pagando o pato da manutenção mal calculada é sempre o time que ficou de fora dessa decisão.
Sem um processo de desenvolvimento bem definido na construção, manter se torna mais caro do que é imaginado em orçamento.
Clonar o sistema atual não resolve o problema
Outro erro comum nessa decisão é tratar o projeto como uma cópia. A empresa quer, na prática, duplicar o SaaS que já usa, incluindo funcionalidades que nunca usou de verdade e que foram pensadas para outra realidade (vender para o maior número de clientes possível), outra empresa, outro contexto.
Isso não é construir um sistema novo. É replicar propriedade intelectual de terceiros e carregar para dentro de casa os mesmos problemas que o sistema atual já tinha, como requisitos e funcionalidades que pouco agregam valor. O objetivo deveria ser outro: pensar no que esse novo software precisa ser para a realidade específica da sua empresa, não no que o fornecedor de SaaS decidiu construir. É basicamente questionar as especificações antes de sair copiando.
O caminho que funciona: processo, não só código
Construir fundamentado em um modelo sólido é o que permite manter e evoluir o sistema por anos, porque a maior parte do trabalho está na manutenção, não na construção.
Isso não significa abrir mão da IA. Significa usá-la dentro de um processo. Agentes de IA entram para ampliar a capacidade do engenheiro de software, e atuam dentro de um fluxo que une a velocidade da IA com o controle do processo. Frameworks organizam o trabalho desses agentes dentro do fluxo de desenvolvimento. E o contexto, os arquivos, as regras, as pessoas envolvidas, é o que mantém esses agentes atualizados e alinhados com a realidade da empresa.
Acredito que essa seja a combinação, processo mais IA, que sustenta um sistema a longo prazo. Vibe Coding sozinho, sem processo, entrega velocidade a qualquer direção. Falo isso por experiência própria: tentei sustentar por 3 meses um sistema construído sem alicerce, e o resultado foi óbvio, descarte e começar do jeito certo.
A pergunta que fica antes de aprovar o orçamento
Antes de cancelar aquele SaaS achando que vai economizar, faça essa pergunta ao time: estamos tirando um custo de um lado, mas qual custo estamos gerando do outro? Quanto custa manter esse novo software e o que precisamos ter estruturado, arquitetura, versionamento, configuração, processo, para sustentar essa manutenção pelos próximos anos? E se essa tecnologia sair da empresa? O que pode ser feito? Qual o risco desse movimento para o negócio?
Se essa resposta não existir antes da aprovação do orçamento, o problema não é a tecnologia. É a decisão.
Um abraço! Leandro | PMP | Gestor de Projetos e PMO